A carioca Teresa Corção descobriu há 16 anos que seu trabalho poderia mudar a vida de agricultores familiares. Em viagens de Norte a Sul do Brasil, a mestre-cuca encontrou produtores que mantinham tradições artesanais, além de conhecer mulheres que lideravam cooperativas e negócios agrícolas.

A chefe de cozinha decidiu mobilizar seus colegas de profissão para promover a valorização dessa produção familiar e defender o protagonismo feminino no campo. O relato é da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Há 16 anos, Teresa, percebeu que o seu trabalho também poderia melhorar a vida de agricultores locais. Teresa entrou para o movimento Slow Food, que prega escolhas conscientes na hora de comer, levando em conta a sustentabilidade da produção e do consumo dos alimentos.

Em 2004, a chef viajou para a Bragança (PA), na Amazônia brasileira. Lá, conheceu Seu Bené e Dona Maria, que trabalham na produção de mandioca. Teresa resolveu então fazer um documentário sobre o modo de preparo da farinha d’água, um alimento tradicional da área, mas que estava esquecido.

Mesmo com poucos recursos, a cozinheira conseguiu produzir um curta-metragem, que foi apresentado em uma palestra internacional e enviado para a Prefeitura do município. Com a repercussão, as autoridades locais começaram a resgatar a fabricação artesanal da farinha, bem como o uso das embalagens tradicionais para o alimento, feitas com folhas e talos da planta de Guarimã, típica da região amazônica.

Teresa também começou a procurar outros chefs para promover a farinha d’água empaneirada. “Essa etapa foi muito difícil, pois muitos chefs de cozinha não tinham interesse em promover isso, e outros achavam o produto mais caro que o produto embalado em plástico”, lembra.

Para fabricar a farinha d’água, a pessoa tem que ter o conhecimento para tecer, forrar com as folhas e fechar o peneiro, um ofício ancestral que torna a produção mais trabalhosa, mas preserva a sustentabilidade do processo.

Depois de conhecer a farinha d’água empaneirada, Teresa começou a pesquisar a farinha de mandioca. A chef viajou para o Sul do país, perto de Florianópolis, onde conheceu Dona Rosa, produtora orgânica que começou a fornecer para o restaurante da carioca.

Quando se deu conta, a mestra-cuca viu que “O Navegador” estava usando alimentos vindos diretamente da agricultura familiar brasileira. Tudo começou com três tipos de farinha: a farinha de Bragança, a farinha de Santa Catarina e a farinha de Copioba, da Bahia.

Teve início uma longa peregrinação em busca de outros fornecedores e produtores familiares. Em suas viagens, Teresa percebeu que as mulheres rurais exerciam uma dupla jornada, pois eram esposas, agricultoras e donas de casa.

“Notei que as mulheres do campo sabiam fazer toda a produção da agricultura e além dessa tarefa, muitas vezes, chegavam cansadas em casa por causa do trabalho na roça e tinham que trabalhar para o sustento da família, cozinhar e cuidar dos filhos”, conta.

“Eu acho essas mulheres muito guerreiras, muito fortes, não é à toa que, nas cooperativas e nas associações, as mulheres vêm conquistando seu espaço, tomando a frente e organizando. Elas não fogem à luta, não tem medo das dificuldades nem do comprometimento com o trabalho.”

O interesse pela agricultura familiar se transformou em 2007 no Instituto Maniva, uma ONG fundada por Teresa para usar a gastronomia como instrumento de transformação social. “Fui andando e formando meu restaurante com um grande diferencial porque eu faço questão de ter no Navegador vários produtos da agricultura familiar”, ressalta a chef.

Teresa escolhe pequenos produtores da agricultura familiar de vários estados do Brasil, não só porque seus alimentos são feitos artesanalmente, mas também por reconhecer o valor da mulher rural. Com isso, a chef espera apoiar a economia do Brasil, preservar o meio ambiente, valorizar os produtos da biodiversidade nacional e diminuir o êxodo rural.

Hoje, a mestre-cuca faz parte de um grupo de “ecochefs”, que organizam movimentos no Rio de Janeiro e buscam valorizar a mulher no campo. “A mulher rural é a força do campo, sem ela não teria agricultura familiar”, completa.

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Fonte: ONU BR