A Expointer, é a maior feira agropecuária da América Latina e isso muita gente já sabe. Milhares de visitantes vão ao Parque de Exposições, em Esteio, RS,  para ver de perto  animais de diversas raças equipamentos e alimentos produzidos por agricultores familiares do Rio Grande do Sul. Também é possível conferir exposição de artesanato, equipamentos, insumos, shows culturais. A cada ano a comercialização de animais e produtos aumenta e o público é cada vez maior.

Este ano a Rosal Comunica convidou uma visitante estreante para nos dizer como é ir à feira pela primeira vez e quais suas impressões. Nossa convidada é a jovem antropóloga Luna Dalla Rosa Carvalho, doutoranda em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Conheça a seguir a opinião de Luna:

“Passeando pela EXPOINTER e refletindo sobre o meio rural gaúcho  

A convite de Ana, uma colega da pós-graduação, fui chamada a conhecer a Exposição Internacional de Animais, Máquinas, Implementos e Produtos Agropecuários, a EXPOINTER, grande feira do agronegócio gaúcho. Claro que já possuía uma série de imagens na minha cabeça sobre o que deveria ser: exposição de animais e premiações, venda de equipamentos agrícolas, etc. etc. No entanto, a experiência como sempre revelou muito mais coisas que eu nem imaginava. Por exemplo, a existência de uma feira gigantesca da agricultura familiar no interior da EXPOINTER, com expositores de todas as regiões do estado, com seus produtos alimentícios e de artesanato. Um espaço da EMATER/RS com uma série de tecnologias ecológicas e baratas. Também a presença de uma diversidade de pessoas, algumas parecendo ter vínculos mais diretos com a vida no campo, outras apenas à passeio, alguns com suas cuias de chimarrão, outros com trajes gauchescos mas todas com alguma curiosidade e com o intuito de se abastecer e conhecer melhor as novidades relacionadas à agricultura. Se eu fosse fazer alguma pesquisa sobre a cultura rural e agrícola sul-riograndense sem dúvida não poderia deixar de conhecer a EXPOINTER. De fato ali parece ser um espaço privilegiado de troca de informação, interconhecimento e conformação de redes, que pautam e constroem o meio rural gaúcho.

Porém, também é um reflexo da forma como se distribui o capital, qual é o foco dos investimentos e o que talvez poderíamos chamar de uma cultura hegemônica na agricultura gaúcha. O Espaço do Empreendedor organizado pelo SEBRAE em conjunto com FARSUL e SENAR, por exemplo, destoa claramente dos outros espaços da feira. Nesse estande estão expostos dados e informações sobre a cultura da soja, sobre a produção de carne bovina e sobre a indústria de vinhos, com um design extremamente sofisticado, alta tecnologia e profissionais bem vestidos. Também havia nesse espaço dois mini-auditórios, um onde eram apresentadas inovações tecnológicas para o agronegócio e um outro em que se falavam sobre cortes bovinos, qualidade das carnes e formas de preparo.  Obviamente apesar de ser de livre circulação, o público que andava por esse espaço parecia ser constituído por pessoas de maior renda e status social. No estande da EMBRAPA, localizado ao lado, o foco também demonstrou ser voltado para culturas comerciais, em especial para criação de ovinos, bovinos, soja, trigo, uva e cana de açúcar.

Fazendo um passeio pelo parque, passei pela parte dos animais, bovinos e ovinos. Impossível não se impressionar com o tamanho de alguns bois e vacas, alguns pesando quase uma tonelada. Nesta parte, cada cabanha ou estância, expõe seus melhores animais, afim de vender matrizes e passar por premiações. Não sou vegana nem vegetariana, mas foi difícil não sentir pena daqueles animais, comendo ininterruptamente, enquanto na parte de trás alguns restaurantes vinculados às melhores raças bovinas serviam carnes para um público seleto. Nesse ponto do passeio comecei a perceber uma certa ausência de pessoas não brancas no meio do público, mas percebi sua presença enquanto funcionários, que cuidavam dos animais expostos, e outros que cuidavam do parque. Depois disso fui ver os cavalos, tenho um afeto especial por esses bichos. Não haviam muitos nas baias, mas os que estavam não pareciam muito contentes naquela situação, os outros deveriam estar sendo apresentados e testado em algum ponto que eu não encontrei na feira.

Na parte da exposição de maquinário agrícola, me senti num tipo de parque de diversões voltado especialmente para homens, com tratores gigantes, semeadeiras, colheitadeiras e uma série de outras máquinas que desconheço, todas de última geração. O Banco do Brasil sempre presente, oferecendo formas de financiamento e os pais com seus filhos observando as máquinas, testando tratores entusiasmados. Nesse ponto as maiores empresas do ramo como Massey Ferguson e John Deere, se sobressaíam pelo tamanho de suas máquinas. Próximo dali também havia exposição e vendas de veículos, em especial de camionetes 4×4. Nessa área das máquinas era possível ver homens de terno que claramente não pareciam ter muita experiência na lida do campo.

Voltando para a área da agricultura familiar onde estava Ana, e já com fome por se aproximar da hora do almoço, ouvi um grupo de pessoas, maioria mulheres, falando: “onde é o espaço dos colonos? O espaço da agricultura familiar…acho que é por aqui”. Fiquei pensando nesse vínculo dos colonos com a categoria agricultores familiares aqui no RS, lembrando da realidade do Rio Grande do Norte onde eu não conseguiria encontrar um paralelo. Enquanto pensava, passava por um dos limites da feira onde havia uma pista tipo de rallye, onde se testavam as Amaroks, camionetes da Volkswagen, que parecem ser as mais desejadas pelo público da feira, ou pelo menos a mais propagandeada. Chegando na parte da agricultura familiar, foi impossível não me sentir mais à vontade, ali a simplicidade é bem mais evidente, além de ser o local da fartura dos alimentos. Encontrei Ana e junto com uma colega sua fomos almoçar numa área de alimentação dentro mesmo do pavilhão da AF. Estava lotado, as mesas e cadeiras coletivas cheias de pessoas, algumas em família, que acredito que eram em sua maioria de agricultores. Escolhemos comer um carreteiro oferecido com arroz agroecológico do MST. O prato veio super bem servido e estava uma delícia, servido com feijão, salada e um pedaço de pão. Almoçamos e depois fomos dar uma percorrida pelos estandes. Ana me apresentou alguns amigos seus que são produtores da região de Santo Antônio da Patrulha. Comprei alguns produtos e conversamos em especial com uma produtora de suco de uva orgânico de Garibaldi.

Foi uma rica experiência pra mim, que apesar de ser gaúcha, comecei a pesquisar a agricultura familiar no Rio Grande do Norte e não conheço de perto a realidade da agricultura no RS. Alguns dos meus preconceitos sobre a Expointer realmente se confirmaram, mas pude ver que se trata de um local com grandes oportunidades pros produtores, claro com uma evidência mercadológica, com essas divisões espaciais entre agronegócio e agricultura familiar e com uma clara tendência à valorização dos grandes monocultivos, mas que também oferece oportunidades para agricultores mais dedicados à produção de alimentos, que buscam tecnologias simples e sustentáveis nas áreas de horticultura, produção de frutas, pecuária familiar, ervas medicinais, sementes crioulas, produtos da sociobiodiversidade, enfim uma série de conhecimentos e necessidades que vêm pautando algumas lutas e projetos da agricultura familiar na sua diversidade, que mesmo estando em menor escala na feira, são importantes de estarem marcando presença, mostrando que existem outras formas de viver o rural e de valorizá-lo. Claro que isso é fruto da resistência e da atuação de diversas organizações, sindicatos, federações, grupos e profissionais que vem lutando por esse espaço na feira por verem nele um espaço interessante. História essa que gostaria de conhecer melhor.” 

LUNA

 Luna Dalla Rosa Carvalho

Doutoranda em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS)