Historicamente, as famílias agricultoras, povos e comunidades tradicionais utilizavam práticas agroecológicas em seu cotidiano, de valorização das suas sementes, da sua ancestralidade e identidade cultural. Ao longo dos anos, esse modo de vida, essa relação entre os seres humanos e a natureza, a própria produção dos alimentos foi dando lugar aos grandes monocultivos, maquinário, a produção de alimentos em larga escala. Enfim, a produção de alimentos passou a ser um negócio e a agroecologia, que era a prática dos nossos antepassados, passou a ser uma ‘alternativa’.

Esta premissa foi sendo desconstruída no inicio da década de 90, quando organizações e movimentos iniciaram um resgate e valorização das culturas tradicionais para contribuir no processo de implantação de práticas agroecológicas. “Nós não temos uma perspectiva difusionista, mas nós temos uma perspectiva compartilhada de conhecimento. Então a gente faz uma ruptura de paradigma da difusão da revolução verde, para um processo mais de gestão dos ambientes e a gente passa a ter uma junção entre a educação popular e da construção de conhecimento agroecológico da agricultura”, explica o membro da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Carlos Eduardo, mais conhecido como Caê.

Quando se fala em agroecologia, não se trata de uma prática alternativa, mas sim de um processo de experimentação de décadas e décadas, que passa de gerações para gerações. Embora o reconhecimento da agroecologia como ciência seja recente, como explicita Carlos Eduardo: “esse conceito não vem da academia, ela vem de um processo de resistência e construção de conhecimentos produzidos historicamente”, pontua.

Para os povos camponeses a relação com a agroecologia além de ser parte da identidade, tem uma ligação com a cultura e a crença. De acordo com o agricultor familiar Geovane José de Sousa, que mora no povoado Cipó no município de Pedro II, Semiárido piauiense, adotar a agroecologia como forma de vida tem um sentido de bem viver no seu espaço.  “Agroecologia pra mim significa respeito que começa pela escolha de um a semente natural, semente deixada por Deus, cuidado com a terra que não deve ser envenenada nem queimada; respeito com as plantas nativas que podem conviver com os cultivos. Agroecologia pra mim é estar mais perto de Deus”, afirma.

Geovane explica que seu modo de trabalhar e a qualidade de vida de sua família mudaram quando começou a aplicar as práticas agroecológicas em seu cotidiano. “Depois que eu adotei a agroecologia eu aprendi a me preocupar com a preservação das sementes crioulas; eu entendi a importância da preservação das árvores e da vegetação nativa; descobri produzindo a mais de cinco anos na mesma área, que se você plantar sua comida respeitando os processos de vida e com a consciência de que você não é o inteligente do planeta e sim que você faz parte de um sistema inteligente, você pode criar áreas de inclusão permanente do ser humano; assim áreas que eu planto este ano daqui a cinco anos eu posso plantar, e depois meus filhos vão plantar e meus netos também”, explicitou o jovem agricultor.

Mas a agroecologia não se faz apenas com quem vive no campo. Tem sido cada vez mais urgente envolver as populações urbanas nesse debate. No contexto de crise e perda de direitos pelos quais passa o país “temos o desafio que é aprofundar a relação entre cidade e campo, que é olhar a cidade como território em disputa. Como conhecer o significado da agroecologia na e da cidade? E resignificar esse direito à cidade no sentido de pensar o desenvolvimento rural na perspectiva de troca de conhecimento de valorização da segurança e soberania alimentar, de novos mercados, de novos processos de resistência territoriais que acontecem tanto no rural quanto no urbano”, destaca Caê.

“A gente tá construindo resistência no sentido de avançar e os sentidos políticos que a gente tá pensando no IV ENA que é o Encontro Nacional de Agroecologia é primeiro visibilizar a disputa do projeto de sociedade e as lutas e as experiências dos nossos territórios, visa mostrar para a sociedade a riqueza dos projetos que nós temos; revigorar o movimento agroecológico na ASA e valorizar o protagonismos das mulheres, dos jovens e dos sujeitos coletivos das águas, das florestas e dos campos e da cidade”, revela Caê acerca da intencionalidade do IV ENA.

Elka Macedo e Fernanda Cruz (Asacom) *Colaboração: Laudenice Oliveira (comunicadora do Centro Sabiá)

Fonte: ASA