Em entrevista concedida ao Consea, o engenheiro agrônomo e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Paulo Niederle, fala sobre as políticas públicas que ajudaram a tirar o Brasil do Mapa da Fome, os desafios para o país avançar na pauta da segurança alimentar e nutricional, as dificuldades que a agricultura familiar enfrenta diante do modelo de desenvolvimento agrícola hegemônico e sobre o papel do consumidor no questionamento dessa realidade.

Mestre em Desenvolvimento Rural e doutor em Ciências Sociais, Niederle é membro do grupo de trabalho sobre Segurança Alimentar da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e atua nas áreas de agricultura familiar, mercados agroalimentares e redes alimentares alternativas.

A seguir um trecho da entrevista:

Consea: Recentemente, o senhor publicou artigo no qual destaca o fato de a indústria alimentícia estar se apropriando de valores vinculados à agroecologia. De que forma isso se dá?

Niederle: Este é um fenômeno globalmente conhecido como “convencionalização” da agricultura orgânica. De uma maneira bastante genérica, trata-se do modo como um conjunto de valores sociais que integram princípios éticos e ecológicos, e que se conjugam nisso que hoje chamamos de agroecologia, são reduzidos a um sistema técnico de produção. Trata-se de uma apropriação de valores na medida em que os atores dominantes no sistema agroalimentar incorporam e, concomitantemente, procuram atribuir um novo significado a práticas de produção e consumo que, historicamente, constituem a principal expressão de movimentos alternativos ao regime agroalimentar que estes atores começaram a edificar após a II Guerra. No âmbito da produção, isso se expressa no modo como o manejo de agroecossistemas diversificados é substituído por monocultivos regidos por sistemas técnicos especializados.

Consea: Quais as consequências dessa “convencionalização” da agricultura orgânica?

Niederle: Com relação às dinâmicas de abastecimento, pode-se destacar a crescente circulação destes alimentos em cadeias globais, por meio das quais redes transnacionais de supermercados que ofertam produtos orgânicos com alto valor monetário agregado. Nota-se uma deterioração dos princípios ecológicos que regem os agroecossistemas, tornando-se mais evidente uma crítica ética, que é ainda mais forte quando a “convencionalização” está associada à restrição de acesso aos consumidores locais aos alimentos produzidos nos seus territórios. Esse fato tem se tornado cada vez mais recorrente, seja na produção de uva e manga para exportação, seja no extrativismo de castanha e açaí.

Consea: E de que maneira pode-se atuar diante dessa realidade?

Niederle: Este processo não deve ser pensado como uma via única. Existem críticas, contestações, resistências. Se, em algumas situações, a agricultura orgânica se aproxima do modelo convencional, a agroecologia se reinventa continuamente. Parte desta luta se expressou, por exemplo, no campo institucional. Enquanto os supermercados pressionaram pela incorporação dos sistemas de certificação por auditoria externa, criando um verdadeiro mercado de certificadoras privadas, as organizações ecologistas conseguiram reconhecer os sistemas participativos de garantia, os quais envolvem produtores e consumidores. Hoje, esses sistemas não apenas estão consolidados, como também se mostram mais confiáveis. Além disso, passaram a ser legitimados pelos próprios supermercados, os quais incorporaram os alimentos com certificação participativa.”

 

Paulo Niederle, engenheiro agrônomo e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em palestra realizada nesta quarta-feira (27), em Brasília, na reunião plenária do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Imagem: Consea
Professor Paulo Niederle                       

Foto: Consea

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Fonte: Consea