Bióloga e assessora do ISA Nurit Bensusan conta um pouco sobre a Rede de Sementes do Xingu e o encontro que marcou seus 10 anos de existência

Um grão, um caroço, uma pequena bolinha e eis que toda uma paisagem se modifica. A emoção da transformação de uma semente em uma planta, em uma árvore, é quase universal. Imaginar que as árvores imponentes da Floresta Amazônica, por exemplo, já foram pequenas sementes que cabiam na palma da nossa mão dá uma dimensão dos processos biológicos e de seus mistérios.

As sementes, porém, contam muitas outras histórias. Quando alguém chega ao posto Diauarum, no coração do Território Indígena do Xingu (MT), e ali vê uma imponente mangueira, desconfia que ali há uma história. A mangueira, ao contrário do que muitos pensam, não é uma espécie nativa brasileira, a mangueira veio da Índia, mas se adaptou tão bem que parece que sempre esteve por aqui. Bom, isso quer dizer, logo de entrada, que a soberba mangueira do Diauarum foi plantada ali ou se derivou do caroço de uma manga chupada por alguém. Diauarum foi o segundo posto estabelecido pelos irmãos Villas-Boas, depois do posto Leonardo. Como a mangueira é muito grande, é possível imaginar que ela date desse tempo, idos da década de 1950.

Foi exatamente debaixo dessa mangueira, árvore que possivelmente testemunhou inúmeras histórias vividas por índios e brancos, que se deu o encontro comemorativo de 10 anos da Rede de Sementes do Xingu. São outras sementes, que contam outras histórias. Revelam o potencial da restauração florestal, feita a partir das sementes de mais de 200 espécies coletadas por mais de 450 coletores. Mostram que é possível viver a partir dos recursos da floresta. Provam que índios e não índios podem trabalhar juntos, com respeito às diferentes formas que cada um tem de fazer as coisas. Mas, sobretudo, contam muito sobre a vida de cada um desses coletores, que fazem a Rede, e que emprestaram sua alegria e seu orgulho a esse encontro.

O encontro reuniu quase 300 pessoas e se, por um lado, o público era bem diverso, a emoção que tomou conta das pessoas era a mesma. Coletores de todos os jeitos, mais jovens e mais velhos, homens e mulheres, índios e não índios, todos satisfeitos de pertencer à Rede, orgulhosos de mostrar seu trabalho e seus desdobramentos. Essas não são apenas as 175 toneladas de sementes coletadas ou os cinco mil hectares restaurados, mas também formas diferentes de recuperar a floresta, como o plantio por meio da muvuca; pesquisas sobre as sementes, feitas pelos próprios coletores; e um impressionante conjunto de novas tecnologias sociais e inovações tecnológicas destinadas a aprimorar a coleta e o beneficiamento das sementes.

A muvuca é uma mistura de sementes que, ao ser plantada, tenta mimetizar o processo de regeneração natural da floresta. Mas a muvuca é também uma excelente metáfora para a mistura que a Rede de Sementes do Xingu é, mistura que mimetiza o mundo. Não apenas há uma grande diversidade de coletores, mas o mais interessante é que cada um coleta e beneficia a semente de acordo com sua vontade. Há quem esteja interessado em aumentar o rendimento de seu trabalho, aumentando a quantidade de sementes beneficiadas por dia. Há outros que querem apenas coletar e tratar as sementes do jeito que sempre fizeram, não considerando rendimento, quantidades, eficiência e outras noções tão enraizadas em nossa sociedade. E todos pertencem igualmente, da mesma forma , à Rede, convivendo na diversidade e no respeito. Como na muvuca, onde cada semente ocupa um papel, uma função, e o resultado é uma floresta, na Rede, todas as diferentes formas de fazer convivem e o resultado, também, é uma floresta.

Como disseram inúmeros coletores da Rede de Sementes do Xingu, que venham os próximos 10 anos e muitos outros. E que o infinito que cada semente guarda dentro de si povoe o mundo…

 

Fonte: Instituto Socioambiental