Duas mulheres, dois períodos diferentes: ambas lutando pelo mesmo ideal. Tereza de Benguela liderou um quilombo na época do Brasil Colônia, por duas décadas. Em um tempo em que os negros eram escravos e mulheres não tinham voz, foi a força feminina que surgiu como símbolo de liderança e de luta pela liberdade. Já a presidente da Associação da Comunidade Quilombola Sabino, Eliene Souza, ainda trava uma batalha a favor dos descendentes mesmo 129 anos após a abolição da escravatura. A Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead), nesta semana de homenagens aos agricultores familiares, apresenta o perfil dessas duas mulheres em homenagem ao Dia Nacional de Tereza de Benguela e ao Dia da Mulher Negra, ambos comemorados na terça-feira (25).

A Sead desenvolve programas que incentivam o empoderamento das mulheres rurais e o devido amparo a elas. A Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) de Mulheres, por exemplo, é uma iniciativa que propõe o fortalecimento da auto-organização de agricultoras familiares e a ampliação e diversificação do cultivo, além do acesso a alternativas de comercialização dos produtos.

A coordenadora-geral de Política para Mulheres Rurais, Juventude e Comunidades Tradicionais da Sead, Solange da Costa, explica o papel dessas medidas. “As políticas públicas afirmativas são muito importantes, principalmente, para a população das mulheres negras. Elas trabalham no sentido de reparar o preconceito pela raça e pelo gênero. São medidas que garantem espaços e reforça o valor da luta delas”.

Tereza de Benguela

De acordo com o livro Dicionário da escravidão negra no Brasil, do historiador Clóvis Moura, no século XVIII, em Vila Bela da Santíssima Trindade, antiga capital do Mato Grosso (MT), Tereza, ou rainha Tereza, como era conhecida na época, assumiu o poder do quilombo Quariterê, após a morte do marido. Segundo trecho extraído da obra, ela tinha o controle absoluto sobre o local. “Impôs tal organização ao grupo que o quilombo sobreviveu até 1.770. Organizou um parlamento, um conselho da rainha e um sistema de defesa com armas trocadas com os brancos ou roubadas das vilas e povoados das redondezas”. O autor afirma ainda que Quariterê tinha a agricultura bem desenvolvida e que lá eram produzidos algodão e alimentos.

Após diversos ataques e com a ofensiva final da Coroa, Tereza, que garantia a proteção de 79 negros e 30 indígenas, foi levada por moradores da capitania. Conforme estudos de Moura, ela foi capturada e teria se envenenado com ervas durante o caminho até Vila Bela, morrendo pela ação do veneno. Posteriormente, se tornou ícone da resistência negra.

Legado

Na comunidade Sabino (BA), a Associação de mesmo nome é um exemplo do legado de Tereza Benguela. Liderada também por uma mulher, a agricultora Eliene Souza, a Associação busca quebrar o preconceito ainda existente. “O que mais me motiva a continuar na luta? O tanto de sofrimento que eu vejo na minha comunidade. Quando cresci, decidi que teria que fazer algo para mudar a vida do meu povo. Sou apaixonada pelo movimento, não só daqui de onde eu vivo, mas de todos os meus irmãos quilombolas.” Eliene perdeu o marido de maneira repentina de um ataque do coração e comenta que se sentiu na responsabilidade de ser exemplo não só para as duas filhas, mas também para todo povoado de mais de 130 anos. “Tinha que seguir em frente, não desanimar, para que no futuro, minhas meninas vejam a diferença.”

A agricultora se orgulha ao dizer que tira da terra o sustento, plantando verdura. “Uma das nossas vitórias foi ter conseguido o Selo de Identificação da Participação da Agricultura Familiar (Sipaf).” Esse, sinaliza produtos que têm na composição a maior parte da agricultura familiar, implicando em uma maior visibilidade a empresas e aos empreendimentos que promovem a inclusão econômica e social dos agricultores, gerando mais empregos e renda no campo. Leia mais sobre o Sipaf aqui.

#MulheresRurais, mulheres com direitos

A luta das mulheres virou uma bandeira da Sead e, desde 2006, se reforça por meio da campanha internacional #MujeresRurales, mujeres con derechos. É uma iniciativa organizada pela Reunião Especializada em Agricultura Familiar no Mercosul (Reaf), a Unidad para el Cambio Rural (UCAR) da Argentina, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e, no Brasil, pela Sead, sob a tradução #MulheresRurais, mulheres com direitos.

A campanha tem como objetivo dar visibilidade às mulheres rurais e de mostrar a importância que desempenham para o desenvolvimento socioeconômico e sustentável. A iniciativa abrange a América Latina e o Caribe com ações que, este ano, começaram em março e seguem até novembro, trazendo como temática os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela ONU. Em 2016, a campanha compartilhou mais de 120 experiências de 15 países.

Confira aqui a experiência do Brasil em 2016

Fonte: Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário