Alface, rúcula, agrião, couve, espinafre, brócolis, alho-poró, cebolinha, coentro, vagem, limão, banana, mamão formosa, entre outros. A cesta semanal de produtos orgânicos fresquinhos e produzidos em uma chácara no Núcleo Rural Lago Oeste, em Brasília, tem destino certo. Os alimentos hortifruti vão abastecer a despensa de 15 famílias que participam de toda a produção, desde a seleção do que será plantado até a colheita. Eles são coagricultores de uma Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA).

A tecnologia social cujo nome vem da expressão em inglês Community Supported Agriculture é um modo diferente de encarar a produção e o consumo de alimentos. Neste modelo, a agricultura é apoiada pela comunidade. O agricultor deixa de vender seus produtos através de intermediários e conta com a participação das pessoas para o financiamento e escoamento da sua produção,promovendo espaços de interação entre as pessoas na cidade e no campo.

Quem escolhe fazer parte de uma CSA, deixa de ser um consumidor e se torna um coagricultor. Passa a colaborar para o desenvolvimento sustentável da região, valorizando a produção local, conhecendo de perto de onde vem o seu próprio alimento e podendo também participar da produção.

COMO FUNCIONA

Um dos principais insumos para criação de uma CSA é a confiança. O agricultor apresenta todas as informações sobre os custos e meios de produção. Esses custos são divididos em cotas mensais entre os coagricultores, que passam a financiar a produção.

A comunidade paga antecipadamente pelos alimentos produzidos e, dessa forma, o custo individual de cada tipo de alimento deixa de ser relevante. O que importa é a produção como um todo e os aspectos necessários para sustentar o tipo de agricultura que a comunidade deseja, entre eles as necessidades dos agricultores, as tarefas de organização da comunidade e os riscos associados à produção.

Na hora da colheita, o alimento já está pago. Sem atravessadores ou risco de não vender a produção, o agricultor pode se dedicar integralmente ao cultivo. Os alimentos são distribuídos entre os coagricultores e a entrega é realizada semanalmente no ponto de convivência.

Vale destacar que uma CSA não é um sistema de compras coletivas de orgânicos, nem um serviço de entrega de cestas e muito menos uma cooperativa de produção. A CSA funciona a partir do compromisso entre agricultor e coagricultores por um período determinado, geralmente seis ou doze meses, no qual dividem tarefas de apoio da comunidade, como o cuidado com os pontos de convivência, a comunicação no grupo e o controle financeiro.

HISTÓRICO

Há experiências em países tão diversos quanto Japão, Estados Unidos, Cuba, França, Marrocos, China, Portugal ou Mali, em que grupos de pequenos agricultores familiares e de consumidores têm criado comunidades em torno de alimentos cultivados localmente, baseadas em princípios de ajuda mútua, compartilhamento dos riscos e tarefas coletivas.

Os nomes atribuídos a cada grupo são diversos – CSA (EUA e Brasil), TeiKei (Japão), AMAP – Association pour le Maintien de l’Agriculture Paysanne (França), RE.CI.PRO.CO (Portugal) e ASC (Canadá). Todos compartilham da mesma essência e procuram reverter o fluxo de abandono das zonas rurais, além de promover a autoestima das pessoas interessadas em lidar com a terra, numa perspectiva socioeconômica integrada com a cidade.

No Brasil, o conceito de CSA foi um dos temas favoritos dos participantes do Fórum Mundial Social de 2011, realizado em Porto Alegre (RS). A tecnologia foi considerada promissora e passou a ser aplicada em São Paulo naquele mesmo ano. Em seguida, se espalhou por mais seis estados e, em 2016, chegou a mais de 60 comunidades pelo país afora.

CSA EM BRASÍLIA

No Distrito Federal, os grupos são congregados pela CSA Brasília, que deu os primeiros passos em 2012. Naquele ano foram realizadas experiências iniciais com grupos de amigos permacultores na Chácara Toca da Coruja, no Lago Oeste. Àquela época, foram feitos os primeiros plantios e encontros de diálogos sobre como implantar uma CSA. Em 2017, o Distrito Federal chega a 20 CSAs.

Criada em setembro de 2016, a CSA Bindu tem como agricultores o casal Ximena Moreno e Marcos Trajano. Ela é chilena, médica-veterinária e mestra em gestão ambiental e mora há oito anos no Brasil. Ele é médico e trabalha com medicina integrativa na rede pública do DF. O cultivo orgânico de alimentos diversos é feito na chácara em que moram, no Lago Oeste.

“A CSA é uma mudança de paradigma. Tanto o excedente da produção como os prejuízos são compartilhados. É mais do que uma compra de alimentos, pois os coagricultores são incentivados a participar de todas as etapas da produção”, explica a agricultora Ximena.

COTAS

A cota mensal de cada coagricultor custeia a produção – mudas, sementes, insumos, água, energia, transporte, salário do agricultor e de funcionários etc. e patrocina iniciativas para divulgar a tecnologia e formar gratuitamente agricultores de baixa renda em técnicas de manejo sustentáveis.

Uma cota prevê aproximadamente 10 itens – folhas, raízes, legumes, flores e frutas. A CSA Bindu, por exemplo, ultrapassa esse limite semanal e chega a compor cestas com 15 itens. O valor da cota pode variar em cada comunidade, pois depende dos custos de produção e do número de coagricultores envolvidos. Além dos alimentos cultivados, outros produtos complementares como pão, ovos, queijos, mel e o que mais a comunidade for capaz de apoiar e desejar sustentar podem fazer parte da cesta semanal.

De acordo com a conselheira de direitos humanos Moema do Prado, 57 anos, a ideia do projeto é que eles possam ter alimentação saudável, procedente de melhores condições ambientais e com a vantagem de conhecer e confiar em quem produz o que é consumido em casa. “Você sai da cultura do preço e entra na cultura do apreço. O apreço pela comida saudável, o apreço pela terra, pela valorização do agricultor. Ainda mais que estamos falando em orgânico. Esse apreço é que faz a diferença”, afirma.

GUIA ALIMENTAR 

A Alimentação projeto das CSA vai na contramão do que acontece hoje nos mercados, já que muitas pessoas optam pelos produtos enlatados.

O Guia Alimentar para População Brasileira recomenda dar preferência ao consumo de produtos in natura ou minimamente processados, priorizando legumes e verduras orgânicos e de base agroecológica.

Para saber mais sobre CSA, clique aqui.

Para acessar o Guia Alimentar para a População Brasileira, clique aqui.

Fonte: Ascom/Consea

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