Biofortificação, você já ouviu falar? Bem como os termos “defensivos agrícolas” e “biocombustíveis”, a Biofortificação pode ser entendida como um exemplo de como os interesses de poucos pode vir a prejudicar muitos.

Vamos começar pela definição: do Latim, fortis significa forte, fisicamente poderoso; e do Grego bios significa vida. Portanto, o termo biofortificação remeta a ideia de “tornar forte a vida”, carregando implicitamente que essa vida seria fraca e, por isso, necessita de algo que a torne forte. O termo então surgiu para aumentar a concentração de alguns nutrientes específicos na planta com o intuito de corrigir supostas deficiências destes na ingestão diária da população em geral. O que na prática seria a manipulação genética de cultivares para obter maiores teores de ferro, zinco e vitamina A, por exemplo.

Mas será que a própria força da natureza que se baseia na diversidade e riqueza de todo o ecossistema já não é forte e completa o suficiente para nos nutrir de tudo que precisamos? A implementação destes alimentos, acontece de modo transparente e de acordo com pesquisas robustas que indiquem a sua necessidade seus ricos?

Observando esse contexto, o Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar lançou este ano de 2016 o documento intitulado “Biofortificação: as controvérsias e as ameaças à soberania e Segurança Alimentar e Nutricional”. Este documento tem como objetivo debater mais detalhadamente esse complexo processo, que passa por um jogo semântico-político das palavras utilizadas, o papel e o histórico dos atores internacionais envolvidos, além da própria falta (em qualidade e quantidade) de estudos que justificassem essa forma de ação.

Estudos mostram os interesses econômicos de grandes empresas privadas por trás disso tudo, empresas como a Monsanto e Bayer que utilizaram do discurso de combate à fome como cortina de fumaça, quando na realidade, o intuito é alavancar o desenvolvimento tecnológico e obter mais lucros, tanto na chamada “Revolução Verde” com a enxurrada de agrotóxicos e na suposta “Revolução Genética” com os transgênicos. Reconhecidamente, nenhum desses processos cumpriu suas promessas de acabar com a fome. Muito pelo contrário, os dados indicam o impacto negativo na saúde pública, como aumento significativo de doenças crônicas não transmissíveis; degradação do meio ambiente, por meio da contaminação da água, do solo e do ar, além de diminuir drasticamente a biodiversidade do planeta.

Conforme há muito Josué de Castro já indicava, a fome oculta, deficiência crônica de micronutrientes em diferentes estágios da vida, é um problema grave e deve ser encarado com urgência. Porém, as causas dessa mazela estão muito mais relacionadas ao modelo de desenvolvimento, às condições de vida da população em geral, do que à simples oferta de alimentos enriquecidos com determinados nutrientes. Pesquisas apontam que a falta desses micronutrientes na alimentação está vinculada a situação socioeconômica, atingindo de modo significativo populações que tem ausência de serviços públicos estruturais básicos como saneamento básico, água encanada e gestão de resíduos domésticos, por exemplo.

No intuito de enfrentar a fome oculta com seriedade, é necessário dar ênfase na ação do poder público, na efetiva participação do conjunto da sociedade civil, de modo a agir sobre as reais causas da falta desses micronutrientes, ao invés de tentar solucionar o problema de forma pontual através da elaboração de novos produtos alimentícios produzidos e gerenciados de acordo com agentes de mercado. Portanto a população necessita de políticas pública que estruturem um sistema alimentar e nutricional que cumpra com a realização do Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável, fortalecendo modos de produção agroecológicos, preservando e promovendo a agrobiodiversidade do campo à mesa, assim como enfrentando as injustiças sociais e econômicas.

Para mais informações, acesse: http://fbssan.org.br/2016/10/forum-lanca-documento-e-boletim-sobre-biofortificacao/

Texto produzido pelo Grupo Gaia (Grupo de Estudos e Práticas em Agroecologia) é formado por estudantes vinculados ao ICTA (Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos – UFRGS) e tem por objetivo fomentar atividades teóricas e práticas relacionadas à temática da Agroecologia, buscando a reflexão crítica do sistema agroalimentar e de questões adjacentes, como de gênero, étnica e cultural. Através da indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão, o grupo pretende promover espaços para debates e atividades técnicas no intuito de pensar a produção de alimentos sob a ótica da Segurança Alimentar Nutricional de maneira socialmente justa, culturalmente inclusiva, ambientalmente sustentável, biologicamente diversa e economicamente viável.