Aqueles que têm acesso à informação e que escolhem o que levar à mesa, podem e devem se certificar da qualidade do que consomem e mostrar aos outros que é possível sim, comer melhor. Hoje, além do simples consumo de bons alimentos, há um movimento de saber como estes alimentos são produzidos e por quem. Tanto é assim que tem sido objeto de pesquisa nas universidades. Quais são as práticas de cultivo, distribuição, industrialização e consumo? Hoje existe um número cada vez maior de pessoas que querem se certificar da origem dos alimentos e vão buscar direto com o produtor rural em feiras ou no campo onde está a produção. Começa assim a organização de grupos que têm o mesmo interesse e buscam diretamente com o produtor.

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Potira fazendo a distribuição das encomendas

A bióloga Potira Preiss é uma das pesquisadoras dessa área dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tendo o hábito de consumir produtos agroecológicos em feiras de produtores rurais em Porto Alegre, resolveu mergulhar nesse universo por meio da pesquisa acadêmica. Com esse propósito conheceu os grupos comunitários de apoio ao agricultor na Escócia e foi ver como funcionava, por aqui, um modelo parecido com produtores rurais de pequenas áreas. Assim se aproximou das famílias de agricultores do assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, no Rio Grande do Sul onde cultivam de forma orgânica. Hoje, a pesquisadora é uma facilitadora da relação entre produtor rural que vive no campo e do campo com os consumidores urbanos. Surgiu o GIA, Grupo de Integração Agroecológica.

O grupo veio da intenção de não apenas consumir de forma saudável, mas colaborar para que essa prática seja cada vez mais comum tanto entre os que compram como entre os que plantam. Para que isso se torne viável, é importante a parceria, ou seja, a união de interesses sem perder o olhar solidário e sustentável. O grupo foi formado inicialmente com amigos e colegas da Potira lá em 2012 e aos poucos uns foram contando para os outros e  foi aumentando, tendo atualmente cerca de 30 famílias consumidoras participantes. Mas eles não são apenas consumidores comuns. A ideia do grupo, baseado nas pesquisas feitas pela bióloga, é de envolvimento com o processo. Ter consciência do que está sendo consumido.

Por isso, promovem saídas de campo, vão até as propriedades dos agricultores, interagem, conhecem o processo de produção e de que forma é feito o cultivo e uma vez por semana fazem a distribuição, de maneira responsável,  do que foi encomendado pelos mais de 30 integrantes.

Aqueles que querem fazer parte, devem dedicar alguns dias do semestre para ajudar na distribuição das encomendas, na logística e na parte financeira. Cada um contribui com um valor considerado pequeno por mês e fazem seus pedidos semanalmente. No início era utilizada uma planilha feita à mão, o produtor levava as encomendas para a casa da Potira que tinha levado a lista com os pedidos de bicicleta até a feira no sábado, para que chegassem durante a semana…Ufa!!!

Com o envolvimento de todos, e muitos deles sendo da Universidade, neste meio tempo foi criado um site e um software pelo Núcleo de Educação à Distância da UFRGS especialmente para o GIA. Com a contribuição mensal, conseguiram uma impressora e viabilizaram a chegada de internet no assentamento Filhos de Sepé, onde estão os agricultores que fornecem os alimentos para o grupo. A distribuição agora é feita em uma sala de multiuso no Programa de Desenvolvimento Rural da Universidade que abriu espaço para essa iniciativa que só tem aspectos positivos.

É a união do urbano com o rural. Fazem visitas periódicas às propriedades para ver como são cultivados os produtos que recebem e os produtores rurais participam de jantares de confraternização com os seus consumidores. O curioso é que depois que escolheram o nome do grupo, verificaram que existe um tipo de perereca que tem nome de genérico de GIA e que ela transita tanto pela cidade como pelo campo. E essa ideia não é a única, mas tem outras tantas feitas de formas diferentes, pois a ideia principal é que se refaça o costume de comprar de pequenos produtores ou vendedores e não apenas em grandes redes de atacado, quando nem sabemos ao certo de onde vieram as verduras, legumes, pães etc.

A história do Gia pode servir de exemplo pra qualquer outro grupo e também pode ser incentivador de outras formas de organização para buscar qualidade nos alimentos. O que importa é conhecer e saber. Um caminho sugerido pela Potira é buscar dicas no Manual que foi atualizado e relançado este ano feito pela Rede Brasileira de Grupos de Consumo Responsável em parceria com o IDEC que dá todas as dicas de como começar.

Tá esperando o quê pra começar ? Bora lá!!!